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O muro

O homem parou em frente ao muro. Era um paredão imenso, rebocado e pintado de branco, um apetitoso convite para todos os pichadores da cidade. Eu ia dizer que o muro permanecia inexplicavelmente imaculado naquela rua movimentada, que não havia nem pichação nem grafite, mas não é verdade. Havia, sim, um desenho naquele muro branco.

Era assim: um risco preto fazendo um contorno retangular desde o pé da calçada, e um pequeno círculo no interior do retângulo, mais para a direita, à altura de uma mão estendida. Serei mais claro: era uma porta desenhada no muro, em tamanho natural, com maçaneta e tudo. Ao lado desse grafismo, feita com o mesmo spray de tinta preta, tinha uma seta ligando o desenho à frase “atalho para a solidão”.

A letra era cursiva e a grafia um tanto infantil. Acho mesmo que qualquer criança, se tivesse subido num banquinho, poderia ter desenhado a porta no muro e escrito a frase ao lado, mas entendi tratar-se de um poema ilustrado. Uma manifestação lírica a quebrar a inércia urbana dos sentidos embotados. Um muro branco, na inóspita rotina da cidade, com uma porta para a solidão, não deixa de chamar alguma atenção e fazer a gente pensar. Mas aquele homem fazia mais do que isso. Ele quedou-se hipnotizado.

Estava já há alguns minutos estatelado, em pé, com os braços caídos, olhando fixamente para a porta riscada no muro. Cheguei a imaginar uma cena de desenho animado: o homem estendendo a mão, virando a maçaneta e a porta se abrindo para a solidão. Ele entrando, fechando a porta atrás de si, e o muro voltando a ser apensas muro, com a cidade em volta, com os carros, com os passantes, sem que ninguém desse falta do homem. Mas ele não entrou, permanecia lá, quietão, com os olhos parados.  

Estaria ele atraído por um convite? Desconcertado com uma revelação? Perplexo por deparar-se com a porta que ele tanto evitava? O homem diante da porta da solidão tinha uma expressão aterrada, como se uma dura verdade o imobilizasse subitamente. Contei cinco, dez, quinze minutos. E nada. Eu fiquei tão incomodado que quase o cutuquei para salva-lo do transe. Antes disso, ele teve um tremelique, e balançou a cabeça como se despertasse. Então olhou para mim, sorriu e foi embora. Talvez porque aquela porta não se abra. Talvez porque seja do lado de cá do muro, justamente no avesso daquele desenho, que habitem os fantasmas da solidão.


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Marcelo Canellas

Marcelo Canellas

Um dos jornalistas mais premiados do Brasil, Marcelo Canellas é repórter da TV Globo e reconhecido pela sensibilidade em seus textos e pelas reportagens humanas, que provocam reflexões sobre cidadania e sociedade. Em 2005, Marcelo Canellas recebeu o título de cidadão paraibano.