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Por que todo mundo precisa de um museu para chamar de seu

Foto: Benh Lieu Song/WikipediaMuseu du Louvre.Museu du Louvre.
Os direitos culturais estão assegurados em nossa Constituição. No entanto, a exclusão do consumo cultural é alarmante: 93% dos brasileiros nunca foram a uma exposição de arte (MinC 2015)  

Como equipamento cultural, os museus têm papel fundamental na identidade das cidades, seja pelo aspecto arquitetônico na paisagem urbana ou como parte da história, da cultura ou memória coletiva dos cidadãos. E têm o poder de aumentar o tráfego de pessoas nos territórios em que se inserem. Ainda assim, não estão no cotidiano, nem no roteiro de viagens da maioria da população brasileira. 


Foto: Divulgação - Sandra VasconcelosMuseu do Homem do Nordeste, Recife-PE. Museu do Homem do Nordeste, Recife-PE.
E isso porque existem vários tipos de museus, ou seja, tem para todos os gostos. Tem o museu Artístico, que é dividido em pinturas e esculturas (arte antiga, moderna e contemporânea) e arte decorativa (porcelana, tapetes, vidros, etc.). Tem o museu Histórico, que estabelece um elo entre o passado e o presente e o museu Científico, com foco nas ciências sociais: antropológico (ligadas ao homem), etnografico (estudo de povos, língua, religião, uso e costumes) e folclórico (tradição, lendas e costumes). Tem o museu Arqueológico, que possui acervos de pesquisas de escavações e o museu de Ciências e Tecnologia que usa a própria ciência e tecnologia para as suas exposições.  Tem ainda o museu de Ciências Naturais e Biológicas que dá destaque à Natureza e o modo de vida dos habitantes, divididos em:  Jardins (botânicos, ecológicos, parques) ou Diogramas (reconstrução do ambiente em tamanho natural). Estes podem também serem ou não Ecomuseus (aquele que integra o meio ambiente da região). Há ainda os museus de Bairro (os comunitários) com atividades voltadas para a comunidade, aberto à visitação pública. E vale lembrar ainda que existe até museu a céu aberto... Quem já foi à Inhotim, em Minas Gerais ou à Florença, na Itália, já conferiu. 


Foto: Divulgação - Sandra VasconcelosMuseu Afro Brasil, São Paulo-SPMuseu Afro Brasil, São Paulo-SP
O desenvolvimento e a multiplicação dos museus


Do colecionismo (uma invenção europeia) para o “gabinetes de curiosidades" o museu surgiu para abrigar coleções. E o conceito evoluiu com a criação do Museu do Louvre, em Paris -- o primeiro museu nacional de arte. Ele surgiu por ideais democráticos já que desde o século XVII havia o debate que todos deveriam ter o direito de acessar a arte. Porém, ainda assim o museu surgiu imbuído de uma base autoritária -- já que as coleções incutiam o gosto de uma elite impondo seu ideal estético como sendo o melhor para todos. 

Só a partir do século XIX, com a multiplicação de museus, é que estes locais começaram a ser vistos como espaços para preservar acervos e obras como representação do tempo. E no século XX, graças à pressão social, o museu evolui para ser, de fato, um espaço cada vez mais público.

Mais recentemente, a instituição museu -- independente do tipo -- começa a destacar a importância da interatividade e da inclusão de pessoas com deficiência. Afinal, o museu, além de preservar e expor, deveria receber visitas de vários públicos e ter mediadores preparados.  Desta forma, surgiram também os programas educativos.


Foto: Divulgação - Sandra VasconcelosMuseu de Artes e Ofícios, Belo Horizonte-MG. Museu de Artes e Ofícios, Belo Horizonte-MG.
Destaque: O museu é instituição que detém as memórias da coletividade e deve, cada vez mais, dar acesso genuíno às comunidades.

Além de servir para o aprendizado, o museu ajuda a incorporar sentidos e fortalece a individualidade sensível e social. No caso do museu de arte, serve para potencializar o questionamento, contribuir para as pessoas se expressarem porque provoca diálogos.

A arte desperta e forma a consciência crítica e o museu é o espaço de relacionamento para compreender o mundo e compreender o outro.  A arte não propõe respostas, mas estimula a fazer perguntas. 

Por isso, para realmente servir como lugar de comunicação e de ideias, o museu tem que falar a língua das pessoas, para nutrir a capacidade social de criar valor e inovar, para que a gente aprenda a apreender, para que a gente possa criar repertório e estabelecer relações e, assim, expandir a mente e pensar por conta própria. 

O museu é um espaço que democratiza os saberes e ativa conhecimento, por isso o incluo nas minhas escolhas, sejam elas de motivação turística ou intelectual. O certo é que sempre espero que estes espaços me provoquem uma experiência abrangente, que vá muito além das exposições.

Assim, após mais 200 anos da criação do primeiro museu, penso que esta instituição serve para estimular a contemplação, a convivência e até como opção de entretenimento. E claro: o  museu serve para esfregar na nossa cara que, enquanto todos morremos, as obras de arte continuam. Sim, o museu serve pra isso: pra gente entender a transitoriedade humana e tentar ser pleno de realidades e de fantasias e, assim, batalhar por viver uma vida menos ordinária. O museu serve pra atiçar e sensibilizar. Serve para que a gente possa questionar, filosofar, perguntar e aprender a crescer como pessoa. Serve pra gente evoluir. Sim. Eu sempre saio muito "maior" de um museu. Porque é dentro dele que constato o tamanho da minha insignificancia.


Foto: Arquivo pessoal - Sandra Vasconcelos

A necessidade da convivência com arte

A prática de ir a museus não é um ato natural: é resultado de um processo dinâmico de constituição cultural. E estar perto de um museu não garante a apropriação do espaço. Há segmentos sociais que não compreendem a ida ao museu como algo “necessário” em suas vivências estéticas e culturais porque ainda não adquiriram o hábito (ou como diria uma especialista: uma criança desnutrida, não sente fome). 
O gosto por museus, assim como qualquer gosto expresso em práticas culturais, envolve aprendizado e exercício condicionados pelo ambiente familiar e escolar. 

Quer saber mais? Assista a série Museu em Movimento (https://www.youtube.com/watch?v=KOPh_ayCG04)

Na foto à esquerda, a obra de arte contemporânea de Gu We nda, de Xangai. As bandeiras dos países foram produzidas com cabelos humanos. O que artista tentava dizer? Que somos todos iguais? É assim nasce a subjetividade da experiência e do contato com a arte. Londres, Jan/2015.


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Sandra Vasconcelos

Sandra Vasconcelos

Sandra Vasconcelos é co-founder da Maximize Marketing. Formada em Jornalismo, com pós-graduação em Artes Visuais e Gastronomia (Espanha). Com o blog Babel das Artes, ganhou o Prêmio Nacional Top Blog. Foi finalista no Prêmio Brasil Criativo 2014 do Ministério da Cultura