Linguagem

Economia Criativa Ver mais

Atividades inteligentes e sustentáveis

“Quem gosta de ler, não gosta de matar”

Foto: divulgacao
Todo mundo falando de ‘Narcos’, a nova série de TV baseada na vida do narcotraficante Pablo Escobar, e eu resolvi pesquisar sobre as bibliotecas-parque da Colômbia. Elas são referência em Economia Criativa e estão servindo de modelo para implantação no Rio de Janeiro, cidade que anda mais conhecida pelos problemas sociais do que por suas beleza naturais.

Foto: divulgacao
Na Colômbia, na década de 1990, a situação era drástica. Não havia nem mesmo em conflitos de guerra, índices tão altos violência como naquele país. Em Medellín eram 381 homicídios a cada 100 mil habitantes (atualmente 28,5). Bogotá, entre as capitais mais perigosas do mundo, chegaram a 80 (hoje 18). Em termos de comparação, na Paraíba o índice é de 38,5% de homicídios para 100 mil habitantes (2013). 

Segundo Jorge Melguizo, ex- Secretário de Cultura em Medellín, para reverter este quadro, as cidades foram transformadas em laboratório social, urbano, educativo e cultural. O projeto foi coletivo e reuniu governo, empresários, igrejas, organizações e cidadãos comuns.

As medidas tiveram como base o bem estar social. As favelas foram incorporadas no desenho da cidade a partir de um projeto de integração urbana. Em 2003, a melhoria do transporte público, com a inserção de teleféricos, garantiu acesso e conectou os bairros mais pobres e perigosos ao Centro. Pontes ligaram bairros “inimigos” como símbolo de união e nestes territórios foram inseridas escolas, bibliotecas e espaços de diversão. Serviços básicos como coleta de lixo, centros de saúde também foram implementados nessas áreas.

Em 2004, os investimentos para a Educação subiram de 12 para 40% e, para a Cultura, de 0,62% para 5%. Em Medellín, parte dos investimentos foram para as bibliotecas-parque, verdadeiros centros culturais com cursos, exposições e acesso à internet. Estes modelos inspiram as que estão surgindo nas comunidades do Rio de Janeiro como a da Rocinha, que conta também com uma cozinha-escola e a de Manguinhos, que tem sala de cinema. Outra parte dos recursos foram para as escolas.

“Que este colégio sirva para derrubar os muros”

As escolas e sua arquitetura também foram alvos de transformação na Colômbia. Isoladas e em áreas inimigas entre si, cercadas por grades e muros de até 3 metros de altura num cenário que remetia mais a uma penitenciária, foram conectadas e se tornaram espaços não só de aprendizagem, mas de convívio e compartilhamento. Funcionando ao lado de uma biblioteca-parque, foi Carlos Pardo o arquiteto a atender o prefeito de Medellin: “ajude-me a transformar esta cidade”, apelou. Em janeiro de 2006 surge o projeto do colégio Santo Domingo Savio, ao lado da biblioteca-parque (Biblioteca España). “Que este colégio sirva para derrubar os muros”, previu o gestor.

A ideia da projeto da escola é que ela se tornasse parte do percurso da comunidade, por isso está ao lado da biblioteca-parque (Biblioteca España) e próxima ao teleférico. A arquitetura tem o design planejado para estimular o convívio entre professores, alunos e a comunidade. Com isso, o equipamento público é incorporado porque não são do governo e, sim, da própria população. O telhado, transformado em mirante, atraiu pessoas de outros bairros. Como reforça Melguizo: “O contrário da insegurança não é segurança: é a convivência.

Por conta das transformações social, cultural e económica, atualmente Medellín é uma das cidades mais inovadoras do mundo. E os processos de transformação de Medellín ajudaram a inserir estes locais no circuito turístico, gerando desenvolvimento económico para estas áreas.  

Foto: divulgacao
No Rio de Janeiro, um dos principais cartões-postais do Brasil, a intenção é boa. Os resultados serão avaliados no futuro. Entre outros detalhes, falta desmilitarizar e humanizar a policía. “Quem gosta de ler não gosta de matar”, disse um cidadão colombiano que vivenciou a transformação social e cultural. A máxima serve para todos os casos, por todos os lados, em qualquer lugar do mundo em que haja perspectivas.

PS: Em João Pessoa, o investimento atual em Cultura é de cerca de 1% e, na Educação, aproximadamente, 27%.


Autoria
  • Email

Sandra Vasconcelos

Sandra Vasconcelos

Sandra Vasconcelos é co-founder da Maximize Marketing. Formada em Jornalismo, com pós-graduação em Artes Visuais e Gastronomia (Espanha). Com o blog Babel das Artes, ganhou o Prêmio Nacional Top Blog. Foi finalista no Prêmio Brasil Criativo 2014 do Ministério da Cultura