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Marcela Sitônio

“O maior gargalo é a falta de ética e a interferência política nos veículos de comunicação”

Presidente da Associação Paraibana de Imprensa analisa o mercado local e destaca a importância do trabalho do jornalista

Foto: divulgação

Na semana passada, diversos países lembraram o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em 3 de abril. Liberdade relativa, diga-se, diante do cenário em que pulsa o impasse entre a missão real do jornalista e os entraves políticos e empresariais existentes. No Brasil, para agravar ainda mais a situação, segundo analistas, a precarização da profissão de jornalista piorou depois que o STF aboliu a exigência do diploma.

Para aprofundar a discussão da situação do mercado jornalístico do Estado, o Paraíba Total conversou com a presidente da Associação Paraibana de Imprensa (API), Marcela Sitônio, que pontuou os problemas atuais dos profissionais da área e seus reflexos na sociedade. “Nosso maior gargalo é a falta de ética, de compromisso profissional e a interferência política nos veículos de comunicação. Precisamos avançar nas relações interpessoais, na melhoria salarial, na produção de conteúdo e na efetivação de concurso público, na discussão de políticas públicas de comunicação, entre elas, a criação do Conselho de Comunicação”, sugeriu a presidente.

Marcela, que é a primeira mulher a presidir a API na Paraíba ao longo de 77 anos de história da entidade, no entanto, é otimista. Na entrevista que segue, ela aborda o perfil do jovem profissional que, segundo ela, está investindo mais na carreira, as boas oportunidades no mercado e afirma que o “jornalismo está em alta”.

Experiente e com atuação em diversos veículos de comunicação e assessorias de imprensa, Marcela atualmente é diretora de informação institucional do Tribunal de Justiça da Paraíba e, por isso, resolveu se afastar momentaneamente da Presidência da API “até que pudesse conciliar de forma mais tranquila as duas coisas”.

Atualmente, a API tem delegacia de base em Campina Grande, Patos, Sousa, Cajazeiras e Guarabira e conta com quase três mil associados.

Oportunidades de emprego, qualificação, nível acadêmico, salários. Como a senhora avalia o mercado de trabalho para jornalistas na Paraíba, nas redações, nas assessorias e nas agências? Estamos bem, se comparado ao restante do Brasil?

Observo um mercado competitivo, mas com oportunidades de emprego para quem se dedica e tem qualificação. O profissional de imprensa tem suas especificidades (espírito de investigação, faro para identificar o que é ou não notícia, perspicácia), mas assim como qualquer outro trabalhador, ele vai construindo sua trajetória e sua marca a partir das oportunidades que vão surgindo. Com mais de 25 anos de atuação na imprensa paraibana, percebo que os novos profissionais investem muito mais na carreira do que os da minha geração e fico feliz com o nível de qualificação de muitos colegas jovens. Por outro lado, os salários nem sempre são compensatórios, chegam a ser vergonhosos. Temos muitos profissionais com títulos de especialização, mestrado, trabalhando nas redações de jornais, portais ou nas rádios, recebendo menos de R$ 2 mil. Diante de uma realidade assim, dificilmente alguém sobrevive com apenas um emprego. Não estamos muitos diferentes de outros Estados com as mesmas características socioeconômicas e geográficas da Paraíba. A precarização da profissão de jornalista piorou depois que o STF aboliu a exigência do diploma. Apesar de toda essa situação, ainda existem boas oportunidades no mercado, arriscaria até dizer de forma empírica, sem nenhum embasamento em pesquisas, que o jornalismo está em alta e não poderia ser diferente. Hoje, mais do que nunca, a comunicação é essencial. Toda empresa que se preza precisa de uma boa assessoria de imprensa. Os gestores públicos precisam prestar contas ao povo dos seus atos e faz isso através das mídias sociais, dos veículos de comunicação, das agências de notícias etc.

Como a senhora avalia a imprensa paraibana, que foca seus editoriais em programas de polícia e política, principalmente?

A miséria alheia e a fofoca sempre atraíram a atenção da humanidade. A maioria dos programas policiais não faz outra coisa, a não ser explorar a miséria dos outros, tudo justificado pela busca de maior audiência. Como espectadores da violência, não vejo muita diferença entre os cidadãos do Império Romano e nós, da modernidade. Eles assistiam, nas arenas dos templos, os espetáculos dos gladiadores, as execuções de pessoas e outros entretenimentos de massas. Fazemos a mesma coisa, só que agora, sentados confortavelmente em nossos sofás. Parece cada vez mais distante o tempo em que a imprensa cumpria sua função social das matérias bem elaboradas, indicando caminhos para melhorar a vida da população, com pautas propositivas. Os escândalos políticos são tão pontuais que nem dá mais tempo de ser fazer uma matéria investigativa porque demanda tempo, aí vem um outro e aquela que estava pautada, corre o risco de ficar ultrapassada. Sei que a violência anda a passos largos, os políticos estão cada vez menos comprometidos com a coisa pública, mas a gente pode sair desse “rame-rame”.

Quais são os principais gargalos do trabalho do jornalista na Paraíba? Em que temos avançado e em que precisamos avançar?

O maior gargalo do jornalismo paraibano é a falta de ética, de compromisso profissional e a interferência política nos veículos de comunicação. Precisamos avançar nas relações interpessoais, na melhoria salarial, na produção de conteúdo e na efetivação de concurso público, na discussão de políticas públicas de comunicação, entre elas, a criação do Conselho de Comunicação.

A senhora acredita que a política muda a cena jornalística no nosso Estado?

A política e o poder econômico mudam a cena jornalística aqui e na China. Enquanto a democracia for efetivada apenas no discurso político e o poder econômico se sobrepor aos direitos constitucionais do cidadão e da cidadã, estaremos sujeitos a interferências alheias ao nosso exercício profissional e teremos ameaçada nossa liberdade de imprensa e de expressão.

A senhora já está no segundo mandato como presidente da API. Na sua opinião, a mulher tem se destacado no papel de gestora de entidades importantes, como a API?

Sem medo de estar cometendo algum radicalismo, eu digo que chegou a vez da mulher. Demorou, foram anos de luta para que a sociedade compreendesse que a discriminação contra a mulher era algo fora de propósito, um ranço machista que não faz mais sentido existir. Quando os homens e mulheres confiarem os destinos da humanidade na gestão feminina, teremos um mundo melhor porque a mulher tem um senso maior de justiça.

Quais foram os principais pontos de avanço da API nos últimos dois anos, na avaliação da senhora?

Sem falsa modéstia, a API teve avanços significativos. Conseguimos recuperar o prédio que estava desabando, através de uma parceria feita com o então prefeito Luciano Agra. Avançamos na representatividade social e política da entidade nos movimentos sociais e da categoria. Reavemos parte do prestígio político da respeitabilidade da nossa entidade. Tudo isso aconteceu porque tive o cuidado de não aparelhar a API com a política partidária ou fazer a politicagem da troca de favores.

Quais são os projetos para a API até o final de sua gestão? 

Atualmente estou licenciada. Desde que assumi a Diretoria de Informação Institucional do Tribunal de Justiça da Paraíba, em fevereiro último, decidi me afastar por um período da presidência, até que eu pudesse conciliar de forma mais tranquila as duas coisas. Não existe nenhum impedimento legal para exercer as duas funções, até porque não há remuneração para nenhum membro da diretoria. Foi apenas um entendimento de conveniência pessoal e ética. Como recebi um convite para uma missão durante dois anos e meu mandato é de três anos, terei tempo de honrar meu compromisso com os colegas de imprensa e ainda realizar vários projetos de cursos, palestras, seminários, interiorização das ações, entre outros planos.

Redação Paraíba Total



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