Linguagem
Resgate da Cultura

Paraíba transforma influência literária em impacto cinematográfico

Tradição cultural encontra força na literatura e no cordel

Foto: Celso Martins
É justo dizer que em tempos atuais o eixo econômico do Brasil está mais ao Sul do que nunca, entretanto, não existe dinheiro no mundo que compre o valor cultural que o Nordeste provê. A região, que já vivenciou tantos altos e baixos, é o berço de obras de importância inestimável em termos de cultura, e a Paraíba é quiçá um caso especial nesse âmbito, pois o estado é um celeiro de pessoas célebres cujas obras culturais imprimiram seus nomes tanto em livros quanto na história da nação.

Naturalmente, a Paraíba acaba sendo também o pano de fundo de episódios relacionados tanto à história do Brasil quanto à cultura local e, diante disso, o estado tem, há alguns anos, investido no ramo das iniciativas culturais. Tais investimentos têm demonstrado bons resultados, que acabam não se limitando à região e invadem outros ramos, como a indústria cinematográfica.

Tradição cultural encontra força na literatura e no cordel

Além de ter sido marcada como uma das três grandes exportadoras de cana-de-açúcar durante o período do Brasil Colônia, a Paraíba merece crédito também pelos grandes nomes, conhecidos ou não, que saíram do estado. Assis Chateaubriand, um dos maiores empresários da história do país, e Celso Furtado, economista cujos estudos sobre o processo de formação econômica no Brasil foram um marco dentro e fora do país, são alguns dos personagens ilustres nascidos na região. No campo cultural, os maiores destaques paraibanos estão no âmbito literário. Escritores do calibre de Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos e José Lins do Rego são nativos do estado.

E, por trás da cultura que surge da região desde a ocupação de João Pessoa por portugueses e holandeses, como lembra uma de nossas matérias, está a influência da literatura de cordel. O gênero cujo nome deriva de ter suas obras expostas literalmente em cordas armadas em bancas possui uma estilística própria, que vai desde as limitações das dimensões do folheto que contém a história até as influências poéticas e narrativas próprias da Paraíba e de outros estados do Nordeste que seguem essa tradição tão rica. Não é por menos que a literatura de cordel é tida como patrimônio cultural brasileiro desde o ano passado, sendo encontrada atualmente no Nordeste e em estados que foram agraciados pela migração nordestina, como São Paulo e Rio de Janeiro.


Tradição literária e paisagem inspiram séries e filmes de grande sucesso

Muitas vezes, obras literárias de alta qualidade e atratividade acabam atravessando as fronteiras das folhas impressas e da tradição oral e invadem outros âmbitos. Um dos exemplos mais claros disso é O Auto da Compadecida, obra escrita por Ariano Suassuna em formato de peça teatral que ganhou três adaptações diferentes para o formato audiovisual. A mais famosa dentre elas foi uma série exibida pela Rede Globo em 1999, que nos anos 2000 virou filme de enorme sucesso, estrelando Matheus Nachtergaele e Selton Mello como os protagonistas João Grilo e Chicó, respectivamente.

Em âmbito semelhante temos Canta Maria, filme lançado em 2006 e dirigido por Francisco Ramalho Jr. a partir de uma adaptação do livro Os desvalidos, escrito pelo sergipano Francisco Dantas. Tanto O Auto da Compadecida quanto Canta Maria foram gravados na cidade de Cabaceiras, localizada no coração da Paraíba. A região tem uma conexão forte com a indústria cinematográfica, sendo inclusive conhecida como “Roliúde Nordestina” por conta dos diversos filmes, novelas e seriados que escolheram a localidade como cenário de gravação.


Essa prática tão comum de adaptar livros para mídias visuais não é algo recente. Na verdade, trata-se de um recurso já bastante antigo. Um dos melhores exemplos que demonstram há quanto tempo essas adaptações já são feitas é o clássico filme E o vento levou, lançado em 1939. O filme foi inspirado no livro homônimo escrito em 1936 pela autora norte-americana Margaret Mitchell, que viu o sucesso da sua obra literária atingindo patamares quase inalcançáveis nas telas de cinema.

Um exemplo recente dessa prática é Game of Thrones, cujas origens estão na série literária criada por George R. R. Martin. O sucesso do seriado transmitido pela HBO foi tamanho que o enredo ultrapassou os limites da tela e chegou a lugares diversos, inspirando a cultura pop como um todo. A influência da saga para além da indústria do cinema permeou marcas como a POP Funko, que lançou bonecos dos personagens de GoT, a Betway Cassino Online, site que disponibiliza um caça-níquel baseado na série, e a Adidas, que criou um modelo de tênis para celebrar o começo da última temporada da série no início do ano. Tudo isso se iniciou nas páginas de livros.

O show tem que continuar

Em questões de cultura, fica bem claro que a Paraíba por si só está muito bem servida. Mesmo nos tempos atuais, em que um dos efeitos adversos da internet, que é a normalização de gostos e a redução da influência da cultura de rua, fica cada vez mais acelerado, os paraibanos conseguem resistir e até mesmo usar essa onda de maior conectividade a seu favor.

É assim que obras como Cinema, aspirinas e urubus, história baseada e gravada em várias cidades da Paraíba, acabou por rodar o mundo, figurando hoje em plataformas de streaming como a Netflix. O restante do Nordeste, por sua vez, também tem tido sucesso neste âmbito, como mostra Bacurau, filme gravado no Rio Grande do Norte e que foi escrito e dirigido pela dupla de pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O filme se tornou um fenômeno de crítica e de bilheteria Brasil afora.



O que une todos estes esforços é justamente os benefícios que uma boa base de políticas públicas apresenta quando se trata de cultura. Por meio de incentivos como a Lei do Audiovisual e a Lei Rouanet, estas obras conseguem os recursos necessários para movimentar não só o setor audiovisual brasileiro, mas também as economias das cidades onde são gravadas.

Tais iniciativas são boa parte do que mantém a cultura nordestina viva e forte. A outra parte é a força própria que essa cultura carrega desde a sua origem, atravessando quaisquer barreiras impostas em seu caminho para continuar inspirando artistas e alcançando pessoas tanto no Nordeste quanto fora dele.




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