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Trabalho Remoto

Home office expande área de contratação de funcionários

Contratar pessoas de outras cidades e estados foi uma possibilidade que a pandemia abriu

Foto: Pexels
“Já mudei de cidade por causa de trabalho umas cinco vezes”, diz o mineiro Samuel Santos, desenvolvedor. “Já morei em Curitiba, em São Paulo, em Franca, no interior paulista.” Desde setembro, Santos está trabalhando para uma nova empresa, com sede em São Paulo, o e-commerce de vinhos Evino. Mas desta vez não precisou fazer as malas nem contratar carreto. Ele continua em Belo Horizonte, pois foi contratado para trabalhar a distância, em home office permanentemente.

Contratar pessoas de outras cidades – e até de outros estados – foi uma possibilidade que a pandemia abriu, com a adoção do teletrabalho por grande parte das empresas.

Isso começou com as vagas de Tecnologia da Informação (TI). Porque existe uma grande escassez desse profissional e uma enorme demanda, as companhias expandiram o terreno de busca para fora de sua área geográfica. “Como o home office se mostrou eficaz em muitos casos, isso abriu os portões para contratação de profissionais em outras áreas também”, diz Fabio Gabbay, presidente da FindHR, empresa especializada na contratação de profissionais.

Na Evino, quatro vagas em vários setores estão abertas e candidatos de outros estados, como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e do interior de São Paulo estão no páreo.

A empresa WelcomeApp, especializada em recursos humanos, também tem uma vaga aberta, na área comercial – e está buscando profissionais não só em São Paulo, onde fica sua sede, mas também em outros Estados. “Um dos profissionais que entrevistamos é de Minas Gerais e ele trabalharia permanentemente em casa”, diz Líverton Oliveira, presidente da WelcomApp.

“Quando a cultura da empresa é focada em resultados, e não na quantidade de horas trabalhadas pelo colaborador, o teletrabalho funciona muito bem e é mais vantajoso financeiramente para a empresa e para o profissional”, diz Oliveira.

Uma vaga júnior, por exemplo, teria, presencialmente, um salário de R$ 2 mil. Mas se for por home office, despesas como vale-transporte, vale-alimentação, podem ser incorporadas ao salário. Os R$ 2 mil, por exemplo, pulariam para R$ 2,5 mil.

“Em alguns casos, profissionais de outras regiões têm salários até 30% menores que os pagos em São Paulo”, lembra Gabbay. Isso pode representar uma economia para a empresa ou um fator de atração mais arrojado, para atrair os talentos.

Também ajuda na diversidade da equipe, segundo Luiz Herique Paiva Moran, gestor de recursos humanos da Navita, empresa com sede em São Paulo da área de telecomunicações. “Nos nossos processos de seleção, a gente faz tudo online, mas sem ligar o vídeo. A gente não vê o rosto da pessoa, nem de onde ela é.”, diz Moran.

Além disso, a diversidade cultural é muito positiva para a empresa, segundo Renata Fior, gerente de recursos humanos da Evino. “Quanto mais pessoas de lugares diferentes, culturas diferentes, mais riqueza de pontos de vista e de visões de mundo a empresa vai ter”, afirma.

Nem todas as funções, contudo, dão certo no trabalho a distância. Geralmente, as que casam melhor são aquelas que dependem apenas de a pessoa trabalhar em frente a um computador.

“Eu mesmo já trabalhei em vários escritórios em que cada pessoa estava numa baia, no computador, cada qual com seu fone de ouvido. Ou seja, para quê estar todo mundo no mesmo lugar presencialmente?”, conta Gabbay.

Funções que envolvem logística, por exemplo, ou para líderes de equipes, costumam ter mais dificuldade. “Muitas vezes, a percepção do que acontece com a equipe se perde no contato apenas por tela”, diz Gabbay. Nesse caso, o modelo híbrido (alguns dias presenciais outros em casa) pode funcionar melhor.

Carteira assinada ou nota fiscal?

Também o regime de contratação pode mudar, segundo Daniela Santos, porta-voz de recursos humanos da Simpress, empresa de aluguel de equipamentos para escritórios. “Esse é um regime de trabalho que se encaixa muito bem para quem é prestador de serviços. Por isso, a contratação por meio do sistema de pessoa jurídica, às vezes, funciona melhor.”

Daniel Costa, diretor de marketing do Grupo BWG, empresa de tecnologia com foco em soluções para o RH, faz um alerta: “Estamos aprendendo sobre esse tema. Quem tiver uma ‘receita de bolo’ sobre este tema pode estar se precipitando”, diz ele.

E como é para quem é o contratado?

“Eu gosto muito, mas é preciso saber que os ritmos são diferentes”, diz Samuel Santos, o mineiro contratado para trabalhar para a Evino, a 590 km de distância de sua casa.

“Presencialmente, se você precisa de alguém, vai na baia dessa pessoa e resolve. Mas no home office a gente manda mensagem. E nem sempre a pessoa responde na hora. Aí vem aquela ansiedade”, conta ele. “A gente tem que aprender que é outra etiqueta.”

Controlar a ansiedade é fundamental nesse novo estilo de trabalho. Quando a coisa aperta, Santos, por exemplo, dá um tempo. “Deito no chão, brinco com meu cachorro ou dou uma voltinha na rua, por uns dez minutos. Isso espairece e as soluções vêm quando a gente respira melhor e o cérebro fica mais arejado.”

E a interação com os colegas, rola?

Claro que sim, diz Santos. Ele toca flauta e já está se enturmando com os outros colegas que também tocam algum instrumento. Já fizeram, por exemplo, sessões de música online.




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