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“O mais importante a ser feito para que o vinho do Brasil deslanche é mudar o pensamento do próprio brasileiro”

Os vinhos são sinônimo de elegância, romantismo e sofisticação – no entanto, por todo esse charme, ainda sofre certa resistência e é diretamente relacionado à alguma data especial ou comemoração. 

Com a pandemia, os vinhos acabaram ganhando um lugar de destaque na preferência das pessoas ao longo do ano por conta de uma melhor disposição em experimentar novos sabores e pelo fato de se passar mais tempo em casa. O consumo, no entanto, ainda é aquém diante de tantas potencialidades e possibilidades da bebida, na opinião da sommelière profissional Natália Gaion. “Um dos meus objetivos enquanto sommelière é o de desmistificar esse pensamento, o de mostrar e convencer que o vinho pode ser simples, pode ser descomplicado. No Brasil ainda temos um longo caminho para tornar o vinho mais democrático”, ressaltou ela, durante entrevista exclusiva ao Paraíba Total.

Natural De São José dos Campos (SP), Natália Gaion foi criada em Porto Alegre (RS).  Jornalista experiente, em 2017 se tornou sommelière profissional certificada pela Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul (ABS/RS) e Association de la Sommellerie Internationale (ASI). Há quatro anos, vive em João Pessoa. “E ao chegar aqui foi amor à primeira vista!”, conta ela. Sobre  o mercado de vinhos  no Brasil e conta os detalhes da sua carreira e os desafios da profissão, ela conta na entrevista que segue. 

O que fez de uma jornalista com carreira sólida trocar esta profissão pela de sommelière profissional e internacional? Como surgiu seu interesse por vinhos?

Como jornalista recebi o convite da Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul (ABS/RS) para fazer o curso profissional de sommelier. O convite para o curso aconteceu em um momento muito pertinente. Eu andava muito cansada e desiludida com o jornalismo e a ideia de “fugir” para a Serra foi incrível: eu ia aprender mais sobre a bebida que já amava, provaria inúmeros rótulos diferentes e ainda teria contato com várias vinícolas. Era tudo que precisava! No fim, descobri que o curso era mega intenso e difícil – com várias provas teóricas e práticas. Soube na primeira aula que não seria nenhum pouco fácil, mas ainda assim segui firme. Passei no curso e me formei (tenho o PIN de Sommelier Profissional e tudo).  

Encerrado o curso percebi que tinha aprendido muita coisa e que como jornalista eu tinha quase que um dever de passar adiante todo esse conhecimento. Então, ainda lá em Porto Alegre, comecei um projeto de mini-cursos. Eu fazia o que o jornalista sabe fazer de melhor: comunicar. Eu traduzia toda a complexidade do mundo dos vinhos para quem ainda estava iniciando nesse universo. E era muito bacana! O pessoal saia muito satisfeito. Com a minha vinda para João Pessoa eu tinha duas opções: voltar para o jornalismo de redação ou seguir carreira de sommelière. Nas redes sociais fui fazendo o que a jornalista Natália Gaion sabe fazer: traduzir, simplificar e me comunicar – tudo isso no universo dos vinhos.  Então, resumindo, eu não larguei a profissão de jornalista. Eu acumulei as minhas paixões: a comunicação e os vinhos. 

Atualmente você trabalha para a Cinco Distribuição i em João Pessoa e é representante da vinícola Família Bebber na Paraíba. Conte um pouco sobre seu trabalho.

Minha história com Cinco, que atua no segmento de distribuição  de bebidas, começou através de uma parceria bem no início da pandemia do COVID-19 no Estado. Na época, a Cinco criou o Emporio5, um braço da empresa, e foi pioneira em delivery de vinhos em João Pessoa. A parceria surgiu de um contato meu com Demetrius Guerra, diretor da Cinco, e sugeri que uníssemos nossas forças: eu criei o primeiro Curso Básico de Vinhos Online com degustação e ministrava o curso em plataformas virtuais, ao vivo e a Cinco entregava os vinhos na casa dos alunos. Foi um sucesso! Tivemos muitas edições desse curso no ano passado. E depois que o comércio voltou a abrir eu e Demetrius percebemos que nossa parceria podia seguir mais longe. Então eu me tornei a sommelière oficial da empresa. Sou bem orgulhosa de ser parte desse time e de trazer inovação ao mercado do vinho da Paraíba com o vasto portifólio da Cinco.

E junto com a Cinco eu acumulo a atividade de representação da Vinícola Família Bebber. Essa vinícola fica na cidade de Flores da Cunha, na serra gaúcha. É uma empresa jovem e familiar (2015), mas que une tradição (das origens italianas) e inovação na produção de seus vinhos. Eu sou uma entusiasta dos vinhos brasileiros e fiz questão de mostrar a qualidade dos nossos vinhos para o paraibano, que ainda consome muito vinho importado.

Muita gente acha que sua profissão é basicamente beber vinhos todos os dias, mas sabemos que requer muito estudo, cursos e treinos. Como é seu dia a dia como sommelière?

As pessoas acreditam que sommelier tem vida fácil. Mas não é bem assim. Antes de tudo é necessário muito estudo. O mundo do vinho é incrivelmente vasto. Há muito o que descobrir e aprender. Precisamos saber sobre as mais de 6 mil variedades de uvas cultivadas para produção de vinho, precisamos saber sobre os estilos de cada vinho, cada região produtora no mundo inteiro, sobre os métodos de produção de cada tipo de vinho, doenças das videiras, defeitos possíveis em um vinho, como degustar, como harmonizar comida e vinho, como servir, etc. Então realmente precisamos estar sempre estudando. O dia a dia de um sommelier depende muito de onde ele trabalha. No meu caso, sou vendedora, então, lido diretamente com o cliente, ajudando a escolher o vinho que combina mais com o perfil do comprador, com a ocasião e etc; Sou curadora, experimento e avalio novos possíveis rótulos para o portfólio da distribuidora e também faço sugestão de cartas de vinhos para nossos clientes – bares, restaurentes e etc – e ainda capacito a equipe do estabelecimento; também atuo na área de ensino, dou cursos para público externo sobre o universo do vinho. 

A harmonização é um tema fundamental na profissão de sommelière. Como funciona este treinamento?

Até hoje é uma das tarefas mais difíceis para mim, pois a harmonização de comida com vinho não é uma ciência exata. Ela requer todos os sentidos muito aguçados (olfato, paladar, tato, visão e até a audição). Requer também um conhecimento básico em gastronomia, porque você precisa pensar em todos os sabores que aquele prato vai apresentar para conseguir encontrar um vinho que irá casar com ele. Então precisa saber sobre o modo de preparo da comida, testar os sabores de cada ingrediente e etc. Não é fácil! Mas é apaixonante! Eu costumo dizer que a harmonização de vinhos com comida é uma arte e não uma ciência e é preciso experimentar. 

Na sua opinião, como são os vinhos brasileiros. Houve uma evolução nas últimas décadas?

A história do vinho brasileiro é bem antiga, vem desde a época que os portugueses chegaram para nos colonizar. Hoje, eu diria que o vinho brasileiro ainda engatinha. Temos muito desafios para superar, impostos e logísticas são os principais na minha visão. O mais importante a ser feito para que o vinho do Brasil deslanche é mudar o pensamento do próprio brasileiro. Muitos ainda pensam que beber vinho é só pra ocasiões especiais, ainda julgam ser uma bebida cara. E um dos meus objetivos enquanto sommelière é o de desmistificar esse pensamento, o de mostrar e convencer que o vinho pode ser simples, pode ser descomplicado. Então resumindo, no Brasil ainda temos um longo caminho para tornar o vinho mais democrático. Mas sou esperançosa e já vi uma mudança grande de comportamento do consumidor nos últimos anos. 

O que faz um vinho ser bom?

Um vinho bom é um vinho sem defeitos! Ou seja, vinhos corretos, que não apresente algum tipo de doença, que não esteja oxidado ou que não tenho elementos em desequilíbrio – álcool em excesso, acidez de mais ou de menos, taninos exagerados e não maduros, etc. Sempre digo que o conceito de bom é muito relativo, pois o que é bom pra mim pode não ser para outra pessoa. Então gosto do conceito de vinhos corretos! É importante entender, também, que cada ocasião pede um vinho diferente e isso fará toda a diferença no momento da degustação e na percepção da qualidade do vinho. Por exemplo, um vinho super premium, de guarda, que custou mais de mil reais seria completamente ruim se degustado a beira mar sob um sol escaldante em taças de acrílico, assim como um vinho de lata, com a pegada bem descontraída, jovem e leve, seria uma experiência não tão agradável em um jantar requintado. É preciso ter em mente, na hora de abrir o vinho, qual é a proposta dele. Traduzindo, para um dia quente na praia costumo optar por vinhos leves (espumantes, brancos ou rosés). Se for uma ocasião descomplicada onde quero só relaxar e abrir um vinho, não sou exigente, abro logo um vinho de entrada, sem complexidade, jovem. Em uma situação mais séria, prefiro os vinhos mais premiuns. Para harmonizar com jantares ou almoços seleciono vinhos mais gastronômicos… Enfim, sempre há um vinho certo para cada ocasião. Minha dica é: se renda! Experimente se aventurar mais no mundo dos vinhos. Abra já uma garrafa! Não precisa esperar pela data especial, apenas abra e seja feliz!